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Bolsonaro mente em pronunciamento sobre a pandemia


Presidente tenta melhorar imagem do governo em meio ao pior momento da epidemia de Covid-19 no Brasil. Sem mencionar recorde de mortes, ele distorce dados e mente que sempre defendeu qualquer vacina aprovada pela Anvisa. Paralelamente, novo ministro da Saúde toma posse em solenidade privada no Palácio do Planalto.



Fotos: PR - Isac Nóbrega / Agência Brasil - Fábio Rodrigues Pozzebom

Vídeo: Planalto



Em pronunciamento na noite desta terça-feira (23/03) – dia em que o Brasil registrou mais de 3 mil mortes por Covid-19 em 24 horas pela primeira vez e em meio ao pior momento da epidemia e ao que foi classificado como o maior colapso sanitário e hospitalar da história do país –, o presidente Jair Bolsonaro tentou defender as ações do governo no combate à crise, mas mentiu e distorceu dados sobre a vacinação.

Na fala de pouco mais de três minutos, apesar de reconhecer que o coronavírus "infelizmente tem tirado a vida de muitos brasileiros", o presidente sequer mencionou o recorde de mortes. Ele afirmou que o governo tomou medidas para combater o coronavírus ao longo de toda a pandemia e que sempre foi a favor das vacinas.

"Em nenhum momento, o governo deixou de tomar medidas importantes tanto para combater o coronavírus como para combater o caos na economia", afirmou o presidente. "Sempre afirmei que adotaríamos qualquer vacina, desde que aprovada pela Anvisa. E assim foi feito."

Na realidade, ao longo de um ano de pandemia, apesar de lançar medidas econômicas, Bolsonaro minimizou frequentemente os riscos do coronavírus, combateu medidas de isolamento social, promoveu curas sem eficácia, criticou a vacina e tentou sabotar iniciativas paralelas de vacinação e combate à doença lançadas por governadores e prefeitos em resposta à inércia do seu governo na área.

Em outubro, o presidente afirmou categoricamente que não compraria a vacina chinesa Coronavac – em claro embate com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que impulsionou o desenvolvimento da vacina da Sinovac, da China, em parceria com o Instituto Butantan.

Em meados de dezembro, Bolsonaro chegou a afirmar que não iria se vacinar. "Se alguém achar que minha vida está em risco, o problema é meu e ponto final", disse em entrevista à TV Bandeirantes. "Esse vírus é igual a uma chuva, vai pegar em todo mundo."


Distorções

No pronunciamento desta terça, Bolsonaro enumerou ações do governo federal para aquisição de vacinas, sem mencionar que inicialmente menosprezou a Coronavac e que inicialmente rejeitou a vacina da Pfizer-Biontech. "Estamos fazendo e vamos fazer de 2021 o ano da vacinação dos brasileiros”, prometeu.

O presidente disse que intercedeu pessoalmente junto à farmacêutica Pfizer para antecipar a entrega de 100 milhões de doses. No entanto, segundou apurou o jornal Folha de S. Paulo, o governo federal rejeitou no ano passado uma proposta da farmacêutica que previa 70 milhões de doses de vacinas até dezembro deste ano.

Em entrevista à DW, a pesquisadora Margareth Dalcolmo, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), considerou que o Brasil errou ao não negociar vacinas para Covid-19 com mais empresas farmacêuticas no "momento adequado" e que o País agora corre atrás de imunizantes.

Em sua fala desta terça, Bolsonaro afirmou também que o Brasil é o quinto país que mais vacinou no mundo. No entanto, segundo levantamento da plataforma Our World in data, ligada à Universidade de Oxford, o Brasil aparece atrás de mais de 70 países em relação a doses aplicadas a cada 100 habitantes até 22 de março. Foram aplicadas 6,64 doses para cada 100 brasileiros.

O presidente também afirmou que o Brasil tem mais de 14 milhões de vacinados. Na realidade, segundo o Ministério da Saúde, já foram aplicadas 15,2 milhões de doses no País – mas das 11,6 milhões de pessoas vacinadas, apenas 3,6 milhões já receberam duas doses.

O presidente também inflou um pouco os números de doses distribuídas para os estados. Enquanto ele disse que foram 32 milhões, o Ministério da Saúde contabiliza 29,9 milhões.

O presidente disse ainda que estão garantidas 500 milhões de doses até o fim do ano, apesar de terem havido vários atrasos nas entregas nos últimos dias. Segundo o Ministério da Saúde, a pasta já garantiu mais de 562 milhões de doses de imunizantes até o fim de 2021, mas, como destaca a agência de checagem Lupa, o governo federal vem alterando o cronograma de entrega de imunizantes no País, o que pode alterar as estimativas.

Bolsonaro também destacou que em setembro de 2020, o Brasil assinou um acordo com o consórcio Covax Facility que prevê 42 milhões de doses para o País. No entanto, segundo a Folha, documentos mostram que cada país envolvido na iniciativa poderia optar por doses para 20% da população ou mais, mas que o Ministério da Saúde optou por acordar doses para apenas 10% dos brasileiros. O primeiro lote de imunizantes adquiridos por meio do consórcio chegou ao Brasil no último domingo.

Mesmo com o ritmo lento da vacinação no País, Bolsonaro prometeu imunizar toda a população até o final do ano. "Muito em breve, retomaremos nossa vida normal”, prometeu o presidente.

O discurso é visto como uma tentativa de melhorar a imagem do governo e mudar o tom em meio a pressões por uma coordenação nacional contra a Covid-19. Durante a fala do presidente, houve protestos e panelaços em várias capitais. Na semana passada, o Datafolha apontou que a maioria dos brasileiros vê a pandemia fora de controle e que para 43% Bolsonaro é o principal culpado pela grave situação no País.



Veja o vídeo, na íntegra:




Posse privada


O médico cardiologista Marcelo Queiroga tomou posse hoje (23) no cargo de ministro da Saúde, em solenidade privada no Palácio do Planalto. O decreto de nomeação foi assinado pelo presidente Jair Bolsonaro e publicado em edição extra do Diário Oficial da União.





Na mesma publicação, também consta a exoneração de Eduardo Pazuello do cargo. O anúncio de substituição do comando da pasta foi feito na semana passada por Bolsonaro.


No dia seguinte, Queiroga concedeu entrevista e destacou a importância da população se engajar nas medidas de prevenção à Covid-19, incluindo o uso de máscaras e distanciamento social.


Marcelo Queiroga é natural de João Pessoa e se formou em medicina pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Ele fez especialização em cardiologia no Hospital Adventista Silvestre, no Rio de Janeiro. Ele atua na área de hemodinâmica e cardiologia intervencionista. Atualmente, preside a Sociedade Brasileira de Cardiologia.


Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que o novo ministro “atende aos critérios técnicos e ao perfil de reputação ilibada exigidos para o cargo, com ampla experiência na área, não só da saúde, mas de gestão”. De acordo com o ministério, o nome de Queiroga foi submetido ao procedimento de consulta, obrigatório a quem assume cargos em comissão e funções de confiança.


Na análise de vida pregressa, não foram encontrados óbices jurídicos à nomeação, segundo a pasta. “Dentre os registros verificados, constatou-se que a Ação Penal – noticiada recentemente pela mídia – por suposta apropriação indébita previdenciária foi julgada improcedente, com absolvição de Marcelo Queiroga, conforme certidão emitida pela 16.ª Vara Federal da Seção Judiciária de Paraíba”, diz a nota.


Com a nomeação, Queiroga é o quarto ministro da Saúde desde o começo da pandemia de Covid-19. Passaram pela pasta, neste período, os médicos Luiz Henrique Mandetta, que estava desde o início do governo Bolsonaro, e Nelson Teich, seguido depois pelo general Eduardo Pazuello, do Exército.



Fontes: DW / Agência Brasil


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