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Bolsonaro ofende jornalista da Folha de S. Paulo e provoca repúdio de entidades


Presidente disse que repórter 'queria dar um furo a qualquer preço', repetindo a afirmação de Hans River do Nascimento, feita na semana passada, de que Patricia Campos Mello ofereceu sexo em troca de informação. OAB, Abraji, ABI, ANJ e Aner reagiram.


Foto: YouTube



"Olha, a jornalista da Folha, tem mais um vídeo dela aí. Eu não vou falar aqui porque tem senhora do meu lado. Ela falando eu sou a 'tatata' do PT. Tá certo? E o depoimento do Hans River, foi no final de 2018 para o Ministério Público, ele diz do assédio da jornalista em cima dele. Ela queria um furo. Ela queria dar um furo [pausa, pessoas riem] a qualquer preço contra mim. Lá em 2018, ele já dizia que eles chegavam perguntando 'o Bolsonaro pagou para você divulgar informações por Whatsapp?", disse o presidente.


A afirmação foi feita em entrevista coletiva de imprensa, nesta terça-feira (18), em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília. Foi com estas insinuações sexuais que Jair Bolsonaro criticou o trabalho jornalístico da repórter Patricia Campos Mello, do jornal Folha de S. Paulo, sobre as investigações do disparo em massa de mensagens durante as eleições de 2018.


Hans River é ex-funcionário da Yacows, empresa de marketing digital que teria participado do esquema de proliferação de mensagens por uma rede social durante o referido pleito, que culminou na CPMI das Fake News. Foi nesta Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que ele fez a declaração.


Veja o vídeo:



Vídeo: Folha do Brasil



Em nota, a Folha de S. Paulo diz: "O presidente da República agride a repórter Patrícia Campos Mello e todo o jornalismo profissional com a sua atitude. Vilipendia também a dignidade, a honra e o decoro que a lei exige do exercício da Presidência".


Ao longo do dia, autoridades se pronunciaram em relação ao fato. Entre elas, o governador de São Paulo, João Doria, declarou: "Considero muito desrespeitosa a atitude do presidente, mais uma vez em relação aos jornalistas e em especial a uma jornalista mulher. Desrespeitosa, inadequada e condenável a atitude do presidente".


Na Câmara dos Deputados, parlamentares como Marcelo Nilo (PSB-BA), David Miranda (Psol-RJ) e Márcio Jerry (PCdoB-MA) criticaram com veemência a atitude de Bolsonaro. No mesmo tom, a bancada feminina da casa acentuou a repercussão negativa do caso, com as deputadas Maria do Rosário (PT-RS), Sâmia Bomfim (Psol-SP) e Talíria Petrone (Psol-RJ). Por outro lado, a bancada de apoio saiu em defesa do presidente, com os deputados Bibo Nunes (PSL-RS) e Otoni de Paula (PSC-RJ).


Várias entidades também repudiaram a atitude de Bolsonaro, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner).


Veja a reação das entidades, na íntegra das notas:


Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)


Abraji e Observatório da Liberdade de Imprensa da OAB repudiam ataque machista de Bolsonaro a repórter da Folha de S. Paulo


A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e o Observatório a Liberdade de Imprensa da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) prestam solidariedade à repórter Patricia Campos Mello, da Folha de S. Paulo, que nesta terça-feira (18.fev.2020) foi novamente atacada pela família Bolsonaro, dessa vez pelo próprio presidente da República.


A Abraji e a OAB repudiam veementemente a fala do presidente. O desrespeito pela imprensa se revela no ataque a jornalistas no exercício de sua profissão.


Na manhã desta terça, durante conversas com jornalistas em frente ao Palácio da Alvorada, o presidente deu a entender que a jornalista Patricia Campos Mello teria se insinuado sexualmente para conseguir informações sobre o disparo de mensagens em massa durante a campanha eleitoral de 2018.


A ofensa propagada por Jair Bolsonaro faz referência ao depoimento de um ex-funcionário de uma empresa de marketing digital dado à CPMI das Fake News, no Congresso. Ao ser ouvido por congressistas, Hans River do Rio Nascimento afirmou que a repórter especial da Folha de S. Paulo ofereceu-se sexualmente em troca de informação.


Naquele mesmo dia (11.fev.2020), o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, replicou o absurdo em falas públicas e nas redes sociais. A Abraji se manifestou sobre a tentativa de abalar a honra de uma das mais respeitadas profissionais do país.


Outras mobilizações espontâneas da sociedade, incluindo a OAB, também condenaram a ação de um agente público contra profissionais de imprensa.


Com sua mais recente declaração, Bolsonaro repete as alegações que a Folha já demonstrou serem falsas. Na mesma entrevista, Bolsonaro chegou a dizer aos repórteres que deveriam aprender a interpretar textos, assim ofendendo todos os profissionais brasileiros, não apenas a repórter da Folha. As declarações foram transmitidas ao vivo na página de Bolsonaro no Facebook.


Os ataques aos jornalistas empreendidos pelo presidente é incompatível com os princípios da democracia, cuja saúde depende da livre circulação de informações e da fiscalização das autoridades pelos cidadãos. As agressões cotidianas aos repórteres que buscam esclarecer os fatos em nome da sociedade são incompatíveis com o equilíbrio esperado de um presidente.


Associação Brasileira de Imprensa (ABI)


Nesta terça-feira, mais uma vez, para vergonha dos brasileiros, que têm o mínimo de educação e civilidade, o presidente da República, Jair Bolsonaro, é ofensivo e agride, de forma covarde, a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo.


Este comportamento misógino desmerece o cargo de Presidente da República e afronta a Constituição Federal.


O que temos visto e ouvido, quase cotidianamente, não se trata de uma questão política ou ideológica. Cada dia mais, fica patente que o presidente precisa, urgentemente, de buscar um tratamento terapêutico.


A ABI conclama a sociedade brasileira a reagir às demonstrações do “Cavalão”, como era conhecido Bolsonaro na caserna, e requer à Procuradoria Geral da República que cumpra o seu papel constitucional, denunciando a quebra de decoro pelo ex-capitão Jair Bolsonaro.


Paulo Jeronimo de Sousa

Presidente da Associação Brasileira de Imprensa


Associação Nacional de Jornais (ANJ) e Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner)


A Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) protestam contra as lamentáveis declarações do presidente Jair Bolsonaro ao ecoar ofensas contra a repórter Patrícia Campos Mello, do jornal Folha de S.Paulo.


As insinuações do presidente buscam desqualificar o livre exercício do jornalismo e confundir a opinião pública.


Como infelizmente tem acontecido reiteradas vezes, o presidente se aproveita da presença de uma claque para atacar jornalistas, cujo trabalho é essencial para a sociedade e a preservação da democracia.


Repercussão e Bolsonaro


Algumas horas após o comentário, depois de uma reunião ministerial, Bolsonaro perguntou se, entre os jornalistas que ali estavam, havia alguém da Folha. Irritado, disse: "Eu agredi sexualmente uma repórter hoje? Parabéns à mídia aí. Valeu, hein? Eu cometi violência sexual contra a repórter hoje?".


Em seguida, questionado se não considerou desrespeitoso o tratamento que deu à jornalista Patricia Campos Mello pelo trabalho desenvolvido, o presidente preferiu não responder. Entrou no carro e seguiu para o Palácio do Planalto, onde empossou dois ministros: o general Braga Netto, na Casa Civil, e Onyx Lorenzoni, na pasta da Cidadania.


Da Redação

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